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Ser mãe de si mesma: um exercício de amor e cuidado pela escrita

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Luciana Palhares
 
Crescemos ouvindo que devemos ser úteis. Que as necessidades dos outros vêm primeiro. Que é preciso calar, não pedir nada, abrir mão até do impulso de desejar algo para nós mesmas. Em muitas casas, meninas são treinadas para desaparecer, para serem solucionadoras, pacificadoras, faz-tudo. E, no meio disso tudo, deixamos de existir para além dos papéis que desempenhamos.
Foi assim comigo. E com tantas mulheres que encontro pelo caminho.
A virada começa quando percebemos um vazio inexplicável. Quando fazemos tudo “certo”, obedecendo e seguindo regras, e a recompensa nunca chega. Quando a linha de chegada se afasta, em vez de se aproximar. Foi nesse ponto que entendi que não estava vivendo para mim, mas em função do olhar do outro. Faminta emocionalmente, aceitava migalhas como se fossem banquetes.
O caminho de volta para si mesma começa com um gesto pequeno, mas revolucionário: a escrita.
Escrever sempre foi meu refúgio. Desde a infância, quando a casa silenciava à noite, eu escrevia. Em segredo, por anos. Sem saber que aquilo se tornaria minha ferramenta de sobrevivência psíquica. A escrita me deu direção, nomeou o que eu não conseguia dizer e guardou partes de mim enquanto eu aprendia, aos poucos, a existir.
Ser mãe de si mesma, no papel, é oferecer a si o próprio colo. É escrever sem medo, sem censura, sem a obrigação de agradar. Pode ser um diário, pensamentos soltos ou até áudios, se a caneta pesar. O importante é colocar para fora o que aperta o peito.
Amar-se, aprendi, é ver. Ver tudo, sombras e luzes, sem julgamento. E continuar olhando. Porque, quando nos vemos, começamos a nos amar. Como nutrir alguém se você mesma está faminta? Como oferecer algo se está exausta?
Priorizar-se é uma revolução silenciosa. Não se trata de confronto, mas de desaprender a ideia de que amor é sacrifício e que é preciso se encolher para caber. E, aos poucos, reaprender a escrever os próprios caminhos.
Pegue um caderno. Escreva. Leia depois e se surpreenda com a mulher que você é quando ninguém está olhando. E ame-se. Esse é o primeiro gesto.
 
Luciana Palhares é escritora, atriz e terapeuta holística luso-brasileira, autora de “Pequenas Verdades e Outras Histórias” (2022) e “Para Entender Uma História de Amor” (2025)

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