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O incrível caso da fé cega

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Isadora Kannenberg

No ano de 1702, um homem chamado Francisco Costa realizou algo extraordinário. Embora fosse gentil, educado e empático, o que mais se destacava em Francisco era sua abnegação. Com frequência, ele colocava os interesses dos outros acima dos seus, a ponto de, segundo relatos, ter deixado de se alimentar para oferecer seu pão a outra pessoa.
Apesar disso, Francisco não se via como alguém superior; para ele, nenhum ato, posição ou passado alterava o valor intrínseco de um ser humano — um assassino e um marceneiro, por exemplo, possuíam o mesmo valor. Assim, acreditava que todos deveriam ter oportunidades igualitárias.
Aos 42 anos, Francisco salvou sua vila da escassez ao convencer cidades vizinhas, mais abastadas, a compartilhar suprimentos em troca de ajuda mútua com serviços. Infelizmente, ele faleceu aos 64 anos, antes de ver sua proposta de união entre as cidades colocada em prática. Mesmo assim, seu nome foi lembrado com carinho pela população, que o homenageou com uma estátua que, futuramente, se tornou ponto turístico.
Contudo, há um detalhe curioso: Francisco Costa nunca existiu. Foi um personagem criado por mim — assim como a suposta estátua que o imortalizaria.
Observadores mais atentos perceberiam que o estilo da estátua não condiz com a época. O nome “Francisco” só se difundiu no Brasil com a colonização; a influência greco-romana na arte só alcançou Portugal por volta de 1750 e o Brasil em 1816. Seria extremamente improvável encontrar uma estátua nesse estilo em 1702.
Como o Brasil era colônia portuguesa, qualquer indivíduo que propusesse a um governo a ideia de auxílio mútuo e redistribuição de bens provavelmente seria executado em praça pública. Ou seja, para que Francisco tivesse relevância suficiente para propor mudanças, ele teria que possuir grande influência política, recursos financeiros e um carisma quase hipnótico — o oposto de alguém que passava fome para alimentar os outros.
Outro indício está na expectativa de vida. Naquele período, em Portugal, homens viviam entre 30 e 40 anos; no Brasil, entre 25 e 35. Seria incomum Francisco ter morrido aos 64 anos em um contexto assolado por tuberculose, varíola e peste.
Atualmente, vivemos em uma era repleta de ferramentas capazes de produzir conteúdos falsos — de fake news a vídeos com celebridades “dizendo” qualquer coisa. Em meio a isso, torna-se fácil se perder nas mentiras e difícil distinguir o que é verdade. E como o excesso de informação torna exaustivo verificar tudo, muitas pessoas acabam aceitando o que recebem como se fosse 100% fato.
Caminhamos para um tempo em que fraudes serão quase indistinguíveis. Por isso, é fundamental fortalecermos nosso senso crítico. Que Francisco Costa permaneça o que realmente é: uma mentira — e não se torne um símbolo de fé cega e ilusória.

Isadora Kannenberg é estudante de Jornalismo e Administração e mora em Barueri/SP

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