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O confronto e o desenlace ideológico

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Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves
 
A sensação que nos últimos dias cresce na América Latina e demais regiões politicamente sensíveis do planeta – como o Oriente Médio – é a de que caminhamos rapidamente ao confronto entre esquerda e direita. Não obstante os vários países onde o eleitor trocou governantes de esquerda por outros de direita, verifica-se a chegada da fase de mudança pela força. Depois de remover Nicolás Maduro e sua mulher da governança da Venezuela para a prisão em Nova York, o presidente Donald Trump, dos EUA, tem advertido  seguidamente os governos esquerdistas e/ou narcotraficantes da Colômbia, Cuba, México, Nicarágua e até o do Brasil (já atingido pelo tarifaço, suspensão de visto a autoridades e a Lei Magnitsky) para evitarem ações que contrariem os direitos humanos e a democracia. Assim como ocorreu com a Venezuela, as demais nações também poderão sofrer intervenção militar na medida dos problemas nelas identificados.
Afastado Maduro, a Venezuela é governada interinamente pela vice do ex-governante, sob a supervisão do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Já foram firmados acordos e o petróleo venezuelano é transportado para as refinarias dos EUA e sua renda será reservada para a reconstrução física e social da Venezuela, cuja economia entrou em colapso com as políticas dos governos bolivarianos de Hugo Chávez e Maduro. O presidente da Colômbia já foi advertido quanto à ideologia e o combate às drogas; o mesmo já aconteceu com o México. Já a Nicarágua foi exortada a libertar presos políticos e arrefecer a repressão.
Donald Trump hoje é visto como o inimigo das esquerdas e a esperança da direita. Todos esperam a sua ação para depois se posicionarem. A ideia generalizada é que pela política a ser implementada pelo seu governo, a esquerda fique fora dos governos da América Latina e Cuba – socialista desde 1959, que até já “exportou” sua revolução para o resto do continente e África, terá de ceder à democracia, pois em 1990 perdeu o apoio financeiro que recebia da União Soviética (desfeita naquele ano) e agora ficou sem o petróleo que a Venezuela de Maduro lhe fornecia em vez de destinar suas rendas para beneficio do povo.
O nosso Brasil, segundo maior país e economia da América Latina também espera negociar com os Estados Unidos. Embora Lula seja pró-esquerda e Trump pró-direita, ambos têm conversado em busca de pontos de convergência porque, apesar da ideologia diferente dos governantes, as nações têm o comércio em comum e ambas poderão ter o povo consumidor prejudicado se não chegarem a acordos tarifários e de fornecimento das mercadorias que trocam. O grande ponto de interrogação na negociação Brasil-EUA reside na questão do narcotráfico. Washington já pediu que o Brasil decretasse as facções Comando Vermelho (carioca) e PCC-Primeiro Comando da Capital (paulista) como organizações terroristas, mas a proposta foi recusada pelo presidente Lula. Há, ainda, a questão do uso da bacia amazônica e dos portos brasileiros para o transporte e embarque de drogas para EUA e Europa.
Há pelo menos um século, esquerda e direita têm o embate pelo domínio político do Brasil e da região. Por longos períodos, os partidos de esquerda aqui estiveram proscritos, mas voltaram com Lula e a Nova República, assumindo o governo após as eleições de 2004 e lá permanecendo ainda hoje. Mas o Foro de São Paulo, que Lula e Fidel Castro fundaram em 1990 com o intuito de criar na América Latina uma república comunista nos moldes da então esfacelada União Soviética, parece estar inteiramente sepultado por absoluta inviabilidade. Em princípio, não somos contrários aos políticos de diferentes tendências. O que nos incomoda é a polarização, que transformou adversários políticos em inimigos figadais que, se puderem, matam seus oponentes. Política tem de ser ação pelo bem que oportunize ao povo a escolha dos seus preferidos para a ocupação dos cargos de governo e representação pública. Quando é feita com ódio, não serve e prejudica a toda a comunidade.
Que Lula e Trump sejam capazes de manter diálogo produtivo e encontrem o caminho da paz. E que o território brasileiro jamais precise de ser ocupado por forças estrangeiras, independente da ideologia que elas representem.

 
Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves é dirigente da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo (Aspomil)