Humberto Pinho da Silva
Quando era menino, meu pai resolveu visitar pequeno povoado para os lados de Penafiel. Soubera, por familiares, que os ascendentes, por parte materna, eram desse lugarejo. A informação acicatou-lhe a curiosidade.
Ao chegar à aldeia, procurou indagar se ainda existiam parentes. De inculca em inculcas, descobriu que havia humilde alfaiate, casado com mulher cujo o sobrenome era igual à da sua bisavó.
Bateu-lhe ao ferrolho e, após curta conversa, veio a saber que a dona da casa era realmente parente, embora afastada. A mulher ficou contentíssimapor conhecer que tinha parentes, que viviam na cidade, e que a procuravam para lhe dar um abraço de amizade. Escancarou, sem receio, a modesta casa e, como lhe gabassem as expelidas begônias que possuía, apressou-se a oferecer uma.
A filha, lavradeira que morava perto, ao conhecer a nossa chegada, veio ligeira ao nosso encontro, convidando-nos a visitar sua casa de lavoura: – “É pobrezinha, mas limpinha. Temos pão e vinho em abundância, graças a Deus”.
Fomos. Na farta e rija mesa de madeira, coberta com alva toalha de linho, havia iguarias do campo e excelente vinho verde acabado de ser retirado na fresca adega. Os olhos da rapariguinha saltavam de alegria por poder oferecer tanto petisco.
Na hora da despedida disse-nos que a família tinha, também, ramo rico. Eram doutores…donos de bastos prédios, mas mal se falavam: “São ricos e nós somos pobres”.
Meu pai ainda passou pela porta dos “ricos”. Não estavam ou não quiseram receber. Uma criadita, vestida a rigor, disse-nos que o senhor doutor andava por fora. Depois de se inteirar quem éramos, ainda foi perguntar à mãe do senhor doutor, mas trouxe-nos o recado: “- Que era assunto só com ele”.
Concluindo: as famílias separam-se em dois grupos: os pobres e os ricos.
Os pobres são, geralmente, generosos e acolhedores. Os ricos, que o foram pelo fato de terem cursado o ensino Superior ou por golpe de sorte, por vezes pouco honesto, são em geral empertigados e apartam-se dos parentes pobres.
Assim se vão separando os irmãos, sobrinhos e primos; e passam, então, a serem parentes afastados…que muitas vezes mal se conhecem.
Humberto Pinho da Silva é editor responsável pelo blogue luso-brasileiro “Paz”








































