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Lula vence 2º turno e garante quarto mandato como presidente da República

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Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Lula confirma virada histórica e é reeleito por mais quatro anos à Presidência da República

O atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contrariou na noite do último domingo, 25 de outubro, todos os prognósticos que a recente história política brasileira previa sobre uma possível vitória em 2º turno das Eleições 2026. Isso porque, desde a redemocratização do país, sempre que houve a decisão em 2º turno da eleição presidencial, nunca nenhum candidato que havia sido derrotado em 1º turno tinha conseguido virar o resultado e vencer a eleição na disputa seguinte.
Pois Lula conseguiu: havia sentido o gosto amargo da derrota para Flávio Bolsonaro (PL) na primeira etapa da disputa ocorrida em 4 de outubro: naquela ocasião, o senador que atualmente faz oposição a Lula, havia vencido com 47,03% dos votos válidos diante de 45,16% dos votos válidos do petista. Flávio Bolsonaro somara 56,1 milhões de votos contra 53,8 milhões de Lula.
No domingo, registrando a virada histórica, Lula conquistou o direito de governar o país por mais quatro ao alcançar 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. No total de votos nominais, Lula somou 64,2 milhões deles, contra 59,8 milhões de seu oponente.
No final, Lula, que havia perdido o 1º turno para Flávio Bolsonaro por uma diferença de 2.224.965 votos, venceu a disputa final com uma vantagem de 4.430.191 (ver quadro).
Eleito para o período de 2027 a 2030, Lula iniciará, portanto, seu quarto mandato como presidente da República (ver quadro). Sua posse, diferentemente dos anos anteriores, que acontecia sempre no dia 1º de janeiro, ocorrerá, pela primeira vez, em 5 de janeiro. Assim, mesmo que seu mandato tenha oficialmente o período de 2027 a 2030, ele dará posse a novo presidente em 5 de janeiro de 2031.

OS CAMINHOS PARA A VITÓRIA

Passada quase uma semana após a vitória consumada nas urnas, as análises dos números naquele momento ainda são as mesmas que explicam a virada de Lula. Algumas delas atribuem ao fato de que o atual presidente não foi às ruas fazer campanha de fato no 1º turno e que, diante da ameaça de derrota, usou as duas semanas seguintes para “correr atrás” dos votos.
Outra questão também imputada à virada foi o fato de Lula não ter dado a devida atenção às redes sociais e à campanha digital no 1º turno, mudando totalmente na segunda fase da disputa, com o auxílio de parcela mais jovem aliada à sua campanha.
O chamado geral para que a população que não foi votar em 4 de outubro, reduzindo a abstenção de 21,08% para 19,22% de um turno para outro, também foi identificado como uma das razões. Só nesse quesito, quase 3 milhões de eleitores “novos” foram às urnas, não que totalmente votando em Lula, mas engrossando o colégio eleitoral brasileiro.
O resultado dessas condições, juntas, permitiu, por exemplo, que Lula, que havia conquistado maioria em 12 estados brasileiros no 1º turno, contra 13 mais o Distrito Federal (DF) por parte de Flávio Bolsonaro; revertesse essa conta para vitória em 13 estados, contra 13 mais o DF de Flávio Bolsonaro. A vantagem de Lula nesse cenário é que ele ganhou justamente no Estado de Minas Gerais (onde havia sido derrotado no 1º turno), nada menos que o segundo maior colégio eleitoral do país, com 16,3 milhões de eleitores, atrás apenas de São Paulo, com 34,1 milhões. E, como diz o coletivo popular: “quem vence em Minas Gerais, ganha a eleição”.

A DIFERENÇA DOS VOTOS

Assim que se encerrou a contagem final das apurações em 2º turno das Eleições 2026, no domingo, 25/10, chamou atenção a contagem final de votos nominais dos dois candidatos, que tiveram votação muito maior e expressiva em relação ao 1º turno. Lula, por exemplo, saltou dos 53,8 milhões do 1º turno para 64,2 milhões no 2º turno, uma conquista de mais de 10,3 milhões de votos, enquanto Flávio Bolsonaro aumentou de 56,1 milhões para 59,8 milhões, também um acréscimo de 3,7 milhões de votos. Ambos tiveram, somados, em votação nominal, 124 milhões de votos, um acréscimo de 14 milhões de votos entre um turno e outro.
Independente da análise de quem ganhou ou perdeu terreno em um ou mais municípios ou um ou mais estados, a contagem numeral é bastante simples de explicar: no 1º turno, todos os outros 10 candidatos ao cargo de presidente da República somaram exatos 9.316.747 votos que, teoricamente, foram dirigidos para a disputa do 2º turno. Além disso, a abstenção, que tinha sido de 33,4 milhões de eleitores ausentes, diminuiu para 30,5 milhões; ou seja, são mais 2.960.239 votos na cesta dos candidatos. Só nesses dois quesitos, somados, são 12,2 milhões de votos a mais.
Por fim, também registraram-se diferenças nas quantidades de votos brancos e nulos. Os votos em branco foram reduzidos de 2,3 milhões para 1,4 milhão (mais 870.302); enquanto os votos nulos foram reduzidos de 3,7 milhões para 2,7 milhões (mais 950.944). Esses dois itens permitiram ainda a soma de mais 1.821.246 votos ao total computado.
No final, a soma de todos eles (outros candidatos = 9,3 milhões + abstenção = 2,9 milhões + brancos = 870,3 mil + nulos = 950,9 mil) dá justamente o total de 14.098.232 votos, que é a diferença exata dos votos nominais obtidos pelos dois candidatos.

Presidentes na era da ‘redemocratização’

A proclamação da República no Brasil ocorreu em 1889, que na verdade foi um golpe militar contra o sistema imperial comandado por Portugal. Esse “golpe” republicano foi liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca, que se tornou o primeiro presidente do país. De lá para cá, diversas constituições foram promulgadas, golpes consumados, presidentes substituídos, num período da história que pode ser assim resumido e dividido: de 1891 a 1944 o Brasil viveu o que hoje é chamado de Velha República, onde o voto era proibido para mulheres e menores de 21 anos, registrando-se diversas fraudes e manipulações relacionadas à prática do coronelismo.
De 1945 até 1964, com Getúlio Vargas no poder, instalou-se o Estado Novo e ao menos cinco eleições podem ser consideradas democráticas, com participação popular, por exemplo. Nesse período o Brasil elegeu presidentes como o próprio Vargas, Eurico Gaspar Dutra, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros.
Essa aparente “normalidade” durou até 1964 quando houve o golpe militar e instalou-se o período de ditadura, que durou até 1988. Cinco militares ocuparam o cargo nesse período e, ao final do regime, em 1985, um colégio eleitoral formado por representantes das assembleias legislativas e do Congresso Nacional escolheu o civil Tancredo Neves para a presidência, que morreu antes de assumir o posto. Em seu lugar, ficou no cargo o então vice-presidente José Sarney.
Em 1989, com o retorno das eleições diretas e participação da população, instaurou-se novamente o regime democrático, chamado de período da “redemocratização do país”. De lá para cá, mesmo registrando dois impeachments (de Collor, em 1992 e de Dilma, em 2016) dez eleições ocorreram normalmente (incluindo a deste ano, 2026), dentro da ordem democrática. Neste período, que já somam 37 anos, o eleito Lula é o recordista de vitórias, escolhido agora para o seu quarto mandato.

Lula também ‘virou’ nos municípios da região Oeste

Entre os sete principais municípios da região Oeste por onde circula este jornal Página Zero, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) havia vencido em cinco deles no 1º turno (Barueri, Jandira, Osasco, Pirapora do Bom Jesus e Santana de Parnaíba), com Lula (PT) ficando na frente nos outros dois (Carapicuíba e Itapevi).
Para o 2º turno, mantendo a tendência do que se viu no voto nacional, Lula também promoveu uma “virada” nessas cidades, mantendo a frente em Carapicuíba e Itapevi, mas também liderando a contagem de votos em Jandira, Pirapora do Bom Jesus e até no maior colégio eleitoral da região, em Osasco. Portanto, agora foi a vez de Lula vencer em cinco deles, com Flávio ficando à frente apenas em Barueri e Santana de Parnaíba (ver quadro abaixo).
No final das contas, Lula pulou do 1º turno de um total de 481.22 votos (43,28%) para 616.132 (52,25%). Já Flávio Bolsonaro, que havia somado 509.566 votos (45,83%) no 1º turno, também saltou para 563.175, mas ficou com apenas 47,75% dos válidos na região.

Trajetória (resumida) da vida de Lula

Lula Marques/Agência Brasil

Nascido em 27 de outubro de 1945, portanto atualmente com 81 anos de idade, Luiz Inácio da Silva é originário de Garanhuns, no Estado de Pernambuco. Conhecido mononimamente como Lula, é um ex-metalúrgico, ex-sindicalista, filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT). É o 39.º presidente do Brasil desde 2023, tendo sido eleito agora, em 2026, como o 40º presidente a assumir o posto.
De origem pobre, migrou ainda criança de Pernambuco para São Paulo com sua família. Foi metalúrgico e sindicalista, época em que recebeu a alcunha “Lula”, forma hipocorística de “Luís”. Durante a ditadura militar, liderou grandes greves de operários no ABC Paulista e ajudou a fundar o PT em 1980, durante o processo de abertura política. Lula foi uma das principais lideranças do movimento Diretas Já, no período da redemocratização, quando iniciou sua carreira política. Elegeu-se em 1986 deputado federal pelo Estado de São Paulo com votação recorde. Em 1989, concorreu pela primeira vez à presidência da República, perdendo no segundo turno para Fernando Collor de Mello (ver quadro). Foi candidato a presidente por outras duas vezes, em 1994 e 1998, perdendo ambas as eleições no primeiro turno para Fernando Henrique Cardoso. Venceu a eleição presidencial de 2002, derrotando José Serra no segundo turno. Na eleição de 2006, foi reeleito ao superar Geraldo Alckmin no segundo turno.
Candidatou-se à presidência nas eleições de 2018, mas teve a sua candidatura indeferida por ser condenado à prisão no âmbito da Operação Lava Jato, em um julgamento controverso. Em 2019, foi libertado com base em decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que anulou paulatinamente suas condenações. Com seus direitos políticos restituídos, candidatou-se à presidência pela sexta vez nas eleições de 2022 e, ao vencer Jair Bolsonaro no segundo turno, tornou-se a primeira pessoa a derrotar um presidente brasileiro candidato à reeleição e o primeiro a ser eleito pela terceira vez.
Foi agora reeleito nas eleições de 2026, derrotando Flávio Bolsonaro e se tornando a primeira pessoa a virar o resultado no segundo turno da disputa presidencial, bem como o primeiro a ser eleito presidente do Brasil pela quarta vez.

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil